Para Aline,
em alguma primavera do segundo semestre de 2013.
Já cantaram Tom, Chico, Vinícius e Toquinho em suas inúmeras letras o amor e a saudade. Há quem diga que o amor é carnal, se sustente a corpo, toque, físico, ao que é palpável. Há sonhadores, creem em um amor que vença barreiras, na substituição do toque dos lábios pelas palavras, dos dedos entrecruzados pela distância, do observar pela cega confiança.
Perdoem-me aqueles que se fixam no concreto, mas amor é utopia. É o irreal que se materializa e, sem utopia, ficamos para trás com o amor, ele é daqueles que se deixam acompanhar apenas pelos livres. Existe uma coisa nessa tal distância que, não sei, se orquestrada com maestria dá uma valsa das lindas e não há quem bote defeito além de pura picuinha. Amar a distância é solidão acompanhada, é de uma saudade que não cabe no peito e dói, mas reconforta-se a cada mínima palavra trocada, uma foto de um segundo cotidiano, um sorriso por trás da webcam.
Perdida pelo google uma vez vi que nos Estados Unidos um em cada dez casamentos conviveram com a distância entre os primeiros três anos. Confesso que faço parte das estatísticas brasileiras, não a do casamento, quem sabe um dia. Aos que o temem, dá-se por aí milhões de conselhos, tantas receitas prontas de dar dó. Ignore todas. O clichê mais correto sobre o amor é que ele não se permite receitas, aliás, tome para si o viver como um processo de experiência única e pessoal, depois você começa a pensar se unir a adereços falantes.
Ainda sobre o amor a distância, ele é presente onde por vezes nem o físico pode ser e é físico onde não se poderia imaginar. É venda que se põe nos olhos por não ver, mas conhecimento por ampla porta aberta ao mundo alheio. Ao se abrir tudo se sabe e, ao saber, não há dúvida. Mas não enganem-se, não é puramente o amor que vence tudo e a todos, assim como tudo na vida, amor é daquilo que se permite, não se descobre no abandono.
Diriam os velhos poetas românticos que amar a distância é plantar as flores para colher a primavera, é a espera do calor que vem no samba, do sorriso, do carnaval. Eita, deus, amar a distância é se permitir invadir pelo desconhecido sem nem saber direito no que vai dar. É se deixar guiar pelos olhos alheios sem a chance de bisbilhotar pelas frestas.
Amar ao longe é se guardar sem se podar e enquanto o amor não chega, se faz poesia. São da pessoa amada todos os sonhos e retalhos cotidianos. O amor é bom e para poucos, o amor é bom e não é corpo. Enquanto o amor não chega, a gente vai se guardado para quando o carnaval chegar.

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