Grita meu eu ao som da melodia que invade meu corpo transpassando o vazio de uma dor antiga que dia após dia penetrou em minha alma e fez casa forte. Habitam aqui restos de um amargo tempo em que se vivia com leveza. Dias menos cinzas, cores e cheiros davam ao viver um frescor diferente do que hoje é existir. Parece que esqueci o sabor das coisas. É na mais vaga imensidão do vazio que me encontro, se dele tento fugir, nele me prendo cotidianamente sem me permitir sentir o mundo.
De dentro do meu poço, tal ponto de conforto doloroso que a mim presenteei, fechei-me ao mundo como quem não quer volta e, ao som triste dos meus passos, deixo-me ir como quem respira por falta de escolha. O peso forte desse cansativo viver sem alma, sem nada, sem rosto, sem cara, sem canto, sem casa, sem eu...sem razão. Arrepia minha pele a doce e precisa sensação de me cuspir. São em minhas linhas que me tiro de mim e, ainda assim, me projetando nesse mundo alheio, não encontro sombras de tudo aquilo meu que se perdeu.
Levo em minha alma o peso do nada. Quão doloroso é sentir o vazio?
Um peso do desguarnecido me corrói existencialmente roubando-me por dentro. A cada toque, a cada olhar, a cada nada. O nada me consome e minha alma grita pedindo para tirá-la desse abismo imenso que ela mesma se colocou. São os dias, as horas, é o tempo passando. Eu vou vivendo a cada minuto o peso de uma existência do que poderia ser e não foi.