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sábado, 5 de julho de 2014

We Might Be Dead By Tomorrow


Sobre o amor e todas as suas coisas
Sobre o amor e toda a beleza
Sobre se encontrar sem que nunca tenha se perdido
Sobre a falta que dá no vazio 
No não ter

O amor e todas as suas coisas
O amor e todas as suas surpresa
És tu amor
Sentimento desenfreado
Nem sei por onde te deixei por aí

domingo, 21 de julho de 2013

Aspas: Marcelino Freire


Namorar é
inaugurar um olhar.

Um jeito de estar
no mundo.

É quando o coração
vem morar
noutro planeta.

Namorar é
o mesmo que nascer
e respirar.

É deixar a sorte
acontecer
no fundo do peito.

Dar de comer
e de beber
ao sentimento.

Namorar é
muito melhor
do que amar.

Amar cansa
e amar é sofrer.

Namorar
não tem
nada a ver
com isto.

Desde criança
você sabe
e me ensina.

Tão bom quanto
beijar menino.

E beijar menina.


 - Marcelino Freire

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Aspas: Alisson França


Queria ser como as estrelas
Que brilham mesmo sobre as
noites mortas de sangue
Ou sobre os gritos de gozo
dos indiscretos amantes
Quem dera eu fosse o amante
Fruindo de todos os gozos
Amando sob as estrelas
berrando nas noites de sangue
Quem dera que eu fosse o gozo
prazer incontido da noite
Herdeiro dos grandes amantes
Estrelas manchadas de branco
Quem dera que eu fosse o sangaue
Que jorra nas noites de gozo
que banham os dias de morte
dos pouco discretos amantes
Pensando bem:
Queria eu ser a noite
que mesmo nos dias de gozo
e mesmo nas noites de sangue
Só vive em função das estrelas

- Alisson França

domingo, 7 de julho de 2013

...

Temos que acreditar.
Creia, menina.
Mas, quando o amor (Seja ele qual for)
Parecer subjetivo demais
E os versos lhe soarem como confusos desejos entre-palavras-melodias,
Por nossa poesia
Por nossa arte
Creia ao menos, então, em meus olhos
E verás com clareza
Que mesmo nos momentos
De aparente penumbra mais densa
Teremos a leveza da amizade
Compondo aquarelas de luz nos refletindo a áurea, a alma, acalma
E-feito tatuagens desenhadas em nossas marejadas
Encandeada
Retinas


- Geraldo Junior

quarta-feira, 3 de julho de 2013

O amor bate na aorta, Drummond.




Cantiga de amor sem eira 
nem beira,
vira o mundo de cabeça
para baixo,
suspende a saia das mulheres,
tira os óculos dos homens,
o amor, seja como for,
é o amor.

Meu bem, não chores,
hoje tem filme de Carlito.

O amor bate na porta
o amor bate na aorta,
fui abrir e me constipei.
Cardíaco e melancólico,
o amor ronca na horta
entre pés de laranjeira
entre uvas meio verdes
e desejos já maduros.

Entre uvas meio verdes,
meu amor, não te atormentes.
Certos ácidos adoçam
a boca murcha dos velhos
e quando os dentes não mordem
e quando os braços não prendem
o amor faz uma cócega
o amor desenha uma curva
propõe uma geometria.

Amor é bicho instruído.

Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que corre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.

Daqui estou vendo o amor
irritado, desapontado,
mas também vejo outras coisas:
vejo beijos que se beijam
ouço mãos que se conversam
e que viajam sem mapa.
Vejo muitas outras coisas
que não ouso compreender...

sábado, 18 de maio de 2013

As-tu déjà aimé?

VIDEO


Mas quando ousamos amar 
Pela beleza do gesto, 
Esse verme na maçã 
Que nos escorrega entre os dentes 
Toca-nos o coração, 
O cérebro e deixa-nos 
O seu perfume lá dentro

Alex Beaupain

terça-feira, 7 de maio de 2013

Cântico Negro





"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?



Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.



Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...



Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.



Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!


- José Regio

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Amar, Drummond.


Overdose de doçura com Drummond, lindo demais, gente.

AMAR

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer, amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho,
e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor à procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor,
e na secura nossa, amar a água implícita,
e o beijo tácito, e a sede infinita.